terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Em gosto de café


Gosto dos pés descalços
correr contra o vento
Gosto do sorriso
espontâneo da liberdade
batendo em meu peito
Gosto de definir decisões
entre um café e outro.
Gosto das incertezas
que são sempre
seguras
Gosto de ver o viver
Gosto de ver o teu viver
Gosto de teu cheiro de café
Gosto de teu cheiro de mulher

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Minha Cabernet Sauvignon


Altiva, aromática, exuberante, estruturada, decidida. Que corpo! Quando entra no paladar, a todos encanta. No retrogosto se abre seu aroma. Na boca se percebe sua composição. O resultado é como um chicote em meus ombros. Seu visual é intenso, brilhante e normalmente não transparente. Parece-me até insatisfeita... Não tem jeito, vou te devorar toda! Quero encher minha boca com teu corpo, morder seus aromas, secar tua cor. Sua estrutura me fascina e alucina. É espontânea, demora para se abrir, mas quando acontece é intensa e marcante. Conquista-me mil vezes pelos contrastes que traz. Você se adapta em qualquer lugar, mesmo sendo castigada, vive a lutar. Adora ser explosiva e mesmo desequilibrada a todos deixa de embriaguez. Teu fascínio pode durar um instante ou ficar cravado pela eternidade. Já não sei sua idade. Quando equilibrada, haja coração, que excitação! Seja sempre assim, escondida neste cheiro, condenada pelo seu corpo. Como resistir sem enlouquecer? Não dá para te esquecer. Na França, no Chile, na Argentina, até na China, não tem limites. Não posso fugir deste calor. Calor te quero e me desespero. Você só precisa ceder a mim por uns instantes para no meu olfato poder repousar. Fuja comigo para onde não tem perigo, meu corpo... Morra de felicidade entre meu fígado e meu coração.

Coração e a razão


Cidade do Porto, Portugal, 2009.
Tem dias que o corpo é coração, Borgonha puro. Em outras, age por razão. Um Bordeaux assumido. Nenhum, nem outro. Um pouco de tudo. Coração é sutil. Sentimento constante. Sensível, mas não fraco. Absorve bem sua criação. A razão é indomada, por momentos destrambelhada. De tanta convicção se perde no objetivo da emoção. Objetivo que sobra a um coração. Desejo franco e direto. Mas razão é razão. Tem horas que razão se faz necessário. Equilíbrio, zona de conforto. Coração necessita da razão. Razão não vive sem coração. Em verdade, ambos se amam. Assim, nem Borgonha, e nem Bordeuax. Ambos vivos no coração, na razão. Vinho é viver. Ver a vida em cápsulas do tempo. Vinho é um poeta. Muitas vezes não é compreendido, mas de tempos em tempos é visitado, e eis que é descoberto. Horas pelo coração, em outra, em pura razão.

Labirinto



Inspiração:

“Não posso mover meus passos por este atroz labirinto"

Cecília Meireles



Seus lábios estão divididos. Não posso mover meus passos por este atroz labirinto. Compromisso acabou, mas o amor persiste. O vazio no coração o mantém na ponta do medo. Não bastará uma única taça de vinho para diluir a tristeza que deixaste... Teus olhos ainda encantam. Sorriso hipnotiza. Deixaste migalha de carinho. Dei a textura do meu interior. Hoje? Dor. Então, o jeito é microxigenar o sentimento que preso está neste caminho. Tem dias que um gole de vinho da vida a saudade da gente, mas espero que com o tempo você seja somente borra no fundo do meu coração.

Lacrimosa

Inspiração:
Mozart, Réquiem em ré menor, KV 626

Triste é a dor mortal
julgada na
beleza dos
olhos de censura.

Lascivo é o querer que
tortura o desejo.
Vida agora tolerável
em verdades aceitas.

Piedade, ó tempo, para que
lágrimas não afoguem o coração
coberto de dor em busca do
descanso eterno.
Amém.