terça-feira, 8 de novembro de 2011

Detalhes de uma degustação


Tem dias que o sol sai à noite, e quando estamos degustando uma sensível uva achamos as mais diferentes sensações. Nossa percepção faz viajar por entre videiras nunca dantes degustadas. Terroir único e mutante.
Devo dizer que o 2006 (93 WS) foi o melhor, mas há controvérsias, pois o 2007 (93 WS) nos flagrou com um marcante aroma de cana de açúcar, daquele aroma que sentimos quando cortada. O 2008 (94 WS), vixé! painho, lavou nosso olfato com arruda esmagada. Tá achando um bando de loucos? Não. Somos apenas enófilos e Sommelièrie  apaixonados. Amantes de um bom vinho.
Vinho só já se faz bom, mas quando harmonizado se multiplica ou suicida-se. No caso em questão os jovens, digo jovem sim, pois se tratando de grand dru da Borgonha ainda são uns meninos, estiveram ainda melhores na média quando junto com nosso Beef Bourguignon. O 2006 permaneceu em constante qualidade, enquanto o 2008 surpreendeu e o 2007 não o fez por menos.
Notas e descrições na maioria das vezes revelam muito mais da memória do crítico (degustador), do que do vinho em si. Agora quando uma Lady e um Duque concordam num aroma isto sim deve ser descrito. Então, acreditem, deu realmente a percepção de arruda no 2008 , e cana de açúcar no 2007. Pode? Sim. Não duvide, pois tem crítico renomado que já achou xixi de gato e muitos enochatos acharam lindo.
Agora degustar Borgonha é mergulhar, na maioria das vezes, na alma feminina. É aquilo que no visual apresenta-se frágil, sensível, porém não se revela no instante, mas somente na dinâmica do tempo. É um mundo sem igual, que nos captura nas curvas dos aromas e no veludo do gustativo.
Devo lembrar neste momento que nunca se deve querer comparar vinhos de regiões distintas, pois é como querer comparar Borgonha com Bordeaux e definir quem é o melhor. Eu? Digo que quando meu coração fica flácido necessito de um Borgonha, e quando a adstringência do dia me machuca necessito de um Bordeaux. Pode rir, pois é coisa de poeta.
Confesso que já mergulhei muitas vezes na Borgonha, e ainda sinto a cada prova aromas que seduzem como o perfume daquelas mulheres misteriosas. Bem, e se o mundo acabar, ainda assim ela, a pinot noir, só vai querer dançar no olfato e fisgar-te  pelo gustativo.
Acabo então com um provérbio Francês: “O vinho da Borgonha faz muito bem as mulheres, sobretudo quando os homens o bebem moderadamente”